Queria ter um pato. Em casa. No quintal. Se possível um laguinho ou riacho fazendo parte da casa, para o pato nadar, e nadar junto ao pato, a manhã inteira, a tarde também, se possível.
-Manhêê! Ô mããe ! Posso comprar um pato?
-Não, não pode.
-Mas mãããe! Disse com a voz desbotando.
Não adiantava, não podia ter o pato.
Dia seguinte o menino andava pelo centro da cidade e viu, em uma loja de animais, um pato. Pato não, patinho. Todo pequeno dentro de uma gaiola, encolhido em um canto. Já tinha penas, amarelas. Não fosse de verdade seria igual a um desses de borracha que se põe na banheira. Teve uma idéia. Se ele não pudesse ter o pato, pelo menos daria o pato de presente para alguém. A empregada que gostava de animais foi a primeira opção que lhe veio à cabeça. E ainda era o aniversário da Zeza, a empregada. E lá foi o menino sentado no ônibus com o pato em uma caixa de sapatos, devidamente com furos para o pato respirar.
-Alô!
-Mãe!
-Estou trabalhando, o quê foi?
-Comprei um presente para a Zeza de aniversário.
-Que presente?
-Um pato.
A mãe não estava nada contente o que gerou a pergunta da colega do trabalho.
-Que que aconteceu?-
-Meu filho me comprou um pato para a empregada de presente de aniversário.
-Mas que graça de menino. Por que essa cara de quem comeu e não gostou?
-A empregada mora em casa.
Não tinha lago, muito menos riacho. Mas tinha uma piscina. Não aquelas de azulejos azuis que vão desbotando com o tempo. Mas daquelas de plástico. Montada com ferro nas bordas. Pequena, no máximo um metro e meio por três. A profundidade deveria ser de menos de um metro, bem menos. Era uma piscina pequena. Na visão do menino era o lago. E do pato também.
Todo mundo se divertiu com o pato que nem tempo houve para escolherem o nome, ficou pato e ponto. O tempo passando, o pato crescendo e onde colocar o pato? A piscina ficou do tamanho que era, pequena.
Havia logo ali, no fundo da casa, lá depois da última porta de ferro um terreno, de casa ainda, mas isolado. Não era enorme, mas não era pequeno. Tinha um ipê roxo, grande, alto; uma sibipiruna não tão alta como o ipê; um pé de fruta-do-conde; um abacateiro, pequeno, plantado pelo menino; e mais algumas plantas e gramas. Já viviam lá pelo menos uma dúzia de lembranças remanescentes de feiras Bicho & Cia e de festas de aniversários com saquinhos surpresas, que na verdade eram cestinhas surpresas com pintinhos dentro. As mesmas surpresas encontradas nas lembrancinhas de feiras. Onde foi parar o pato? Lá mesmo. Sem lago, piscina ou riacho.
O pato parecia nem se importar com a falta de banho. Muita grama, muita terra, pena vermelha de terra em vez de amarela. E no meio de frangos. Feliz como pinto no lixo. Continuou crescendo e Zeza aparando as penas das asas para evitar uma viagem para o sul. E em um esquecimento na aparagem das penas e o telhado virou o sul.
Férias, todo mundo para a praia. Zeza foi junto. E o pato? Ficou com os pintos. E a comida para o pato e os pintos? A vizinha, claro. Não, a vizinha não era a comida do pato ou dos pintos, ela levava quirela. Mas Zeza não podou as penas antes de viajar e em um belo dia a vizinha não encontrou o pato. E onde estava o pato? Bota a criançada da rua para procurar o pato, bate de porta em porta, pergunta para o vizinho da frente, pergunta na padaria até que finalmente encontraram. Lá em cima do telhado estava o pato achando que tinha migrado. E quem disse que alguém conseguia tirar o pato do telhado? O pato fazia todo mundo de pato. E sobrou para o 193. E lá vieram os bombeiros. Cercam a casa, os muros, o telhado. E lá foi o pato de volta para o fundo do quintal com penas a menos.
Um dia acharam um ninho. Deve ser das galinhas, que já não eram nem pintos e nem frangos mais. Mas Zeza achou um ovo no ninho.
-Isso num é ovo de galinha.
-Como não?
-Cunheço ovo de galinha, cunheço ovo de pata. O pato é pata.
Pronto. Agora não tinham mais um pato, tinham uma pata. “Habemus Pata”. E dá-lhe gemada de pata, ovo de pata. E a pata ficou brava. Não sei se por não ter um pato ou se para proteger o território, mas que ninguém entrava no terreno dos fundos, ah ninguém entrava. Era abrir a porta de ferro e botar o nariz no terreno que lá vinha o pato, ops, a pata. E não era pata aqui, pata acolá, era com asas abertas e pescoço em ataque para ver o que que há.
Um certo dia alguém abriu o congelador, não lembram se foi a mãe ou alguma das irmãs, mas lá estava a pata. Com o pescoço quebrado, esperando para ir para a panela. E mesmo sem tantas ter feito a moça foi para a panela. Não da casa, que a mãe proibiu e mandou Zeza dar um sumiço na pata. Para alguma casa foi-se a pata, nem quiseram saber qual.
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